Muita gente não sabe, ou talvez tenha suspeitado por algumas postagens que faço pelas minhas redes sociais (como minha última análise sobre A Substância), mas é que, além dos livros, sou um aficionado por filmes. Confesso que me falta um pouco de disposição para frequentar as salas de cinema, quase sempre em shoppings centers, o que as tornam barulhentas demais, mas também porque sou um entusiasta dessas plataformas de streaming, tal como eu era das antigas locadoras de fitas VHS e depois de DVD. Há algo para mim de uma reprodução da experiência literária quando assisto a um filme, e se por vezes me divirto vendo alguns com familiares e amigos, na maior parte as experiências estéticas com o cinema, as que me são mais significativas, vêm pela solidão com a tela. Daí se explica o meu grande atraso em só agora assistir, e comentar, The Whale (A baleia, 2022).
É bem verdade também que, como um (até certo ponto) digno cinéfilo, acompanho a festa do Oscar com prazer, e ano passado guardei na memória os comentários, devidamente merecidos, reconheço agora, ao filme The Whale, que rendeu o Oscar a Brendan Fraser, pela sua atuação impecável no papel do protagonista Charlie. Houve polêmica, sobretudo de quem acreditou ter sido equivocada a escolha de um ator não obeso para esse papel. Para mim, já começa aqui a incrível capacidade que o filme de Darren Aronofsky (um dos melhores diretores da atualidade) teve para condensar efeitos de significado, na trama baseada no livro de mesmo nome de Samuel Hunter (ainda sem tradução por aqui). Fraser, que estava há 12 anos sem aparecer nas telas, supera a si mesmo num filme sobre uma condição física que não lhe diz respeito, a obesidade, encarnando uma personagem que se entrega à própria desgraça, como se ela lhe fosse insuperável. Isso, no meu entender, é arte pura, no melhor da sua experiência: aquela que nos leva a reconhecer a superação de si como a razão de ser do artista.
O enredo é denso e entrelaça, de maneira angustiante, as poucas personagens do filme. Somos apresentados desde o início ao Charlie, professor online de escrita, cuja obesidade mórbida explica por que ele jamais liga sua câmera (numa irônica inversão de perspectiva da que nós, professores, vivenciamos ao ministrar aulas online, já que somos nós sempre os que aparecemos, enquanto os estudantes costumam se esconder com a câmera desligada). Mas a imagem ausente do professor ao centro da chamada de sua vídeoaula me fez experimentar (tal como parece ter feito aos seus alunos) a força da palavra, isso que dá sentido à vida de Charlie, aquilo que o salva, ou adia sua morte, depois da perda de seu grande amor Alan. A presença ausente de Charlie em suas aulas, para mim, intensifica não só a condição de presença que a ausência de Alan lhe inflige ao próprio corpo, em forma de compulsão pela comida, como também aquela presença das palavras de sua filha, numa redação sobre o livro Moby Dick, de Herman Melville, que ele sempre lê para se acalmar nas constantes faltas de ar, como se o texto pudesse trazer de volta a convivência perdida com a pequena Ellie (Sadie Sink), essa que retornará adolescente para lhe culpar pelo abandono sofrido, e cuja presença outra vez deflagra o acerto de contas de Charlie com seu destino escolhido.
A referência a Moby Dick não me parece casual. Não li o livro que dá origem ao roteiro do filme, mas me parece improvável que a baleia branca do livro de Melville, objeto da obsessão do capitão Ahab por ela haver lhe arrancado uma perna, não sirva de metáfora para a situação de Charlie em The Whale. A baleia Moby Dick, assim transformada em motivo para uma reflexão sobre o destino humano, entregue à paixão enlouquecida para vingar o que se perdeu, o que nos foi tirado, dá um sentido existencial ainda mais intenso às palavras de Charlie, como um barco no qual ele decide permanecer adiando aquele inevitável naufrágio que o espera. O capitão Ahab, em suas palavras, parece dizer muito sobre o destino de Charlie: “quando penso na vida que levei; na desolada solidão que tem sido; na muralha, na cidadela do isolamento de um Capitão… – oh, fadiga! opressão!”
“Este livro me fez pensar na minha própria vida, e então me fez me sentir feliz por ela”.
A frase, constantemente repetida pela leitura do texto de sua filha, deixa ver o que se torna para nós o drama de Charlie. The Whale constrói uma trama envolta nessa condição de presença enquanto efeito das ausências, e no destino de abandono a que geralmente se submete quem não consegue lidar com elas. Vivendo praticamente isolado, não fosse a amiga enfermeira Liz (Hong Chau), a irmã rebelde de Alan que observamos aprisionada na ambiguidade de cuidar da saúde do cunhado enquanto lhe faz as vontades de um apetite degradado, Charlie recebe a visita inesperada de um jovem missionário, Thomas (Ty Simpkins), que o salvará de uma crise respiratória, ao início do filme, lendo as palavras do texto da filha sobre Melville. A cena inicial, cuja sugestão sexual (Charlie sofre sua crise enquanto tentava se masturbar) descobriremos aos poucos fazer parte das ausências de Charlie, traz na personagem de Thomas a síntese entre fuga e abandono que todos ali precisarão, de algum modo, superar.
O contraste entre a juventude rebelde de Thomas e de Ellie, e a maturidade resoluta de Charlie e Liz (e de certa forma também a da ex-mulher abandonada por Charlie, mãe de Ellie), trazem ao primeiro plano aquele dilema inevitável aos leitores de Moby Dick. O tédio das descrições sobre as baleias, além de poupar seus leitores da vida triste de seu autor (como o texto de Ellie repete em leitura), intensifica a sensação de abandono do próprio ser humano diante da grandiosidade admirável, e por vezes injustificável, da natureza em volta. De algo que, inclusive dentro de nós, parece nos conduzir ao abismo: “Que coisa é essa, que coisa sem nome, inescrutável, sobrenatural é essa; que fraudulento e secreto senhor e mestre, cruel e impiedoso imperador me domina; que contra todos os afetos e desejos naturais eu me sinta empurrado e pressionado e forçado o tempo todo; imprudentemente pronto àquilo que no meu próprio coração natural jamais ousei e ousaria?”
Lemos, nessas palavras do capitão Ahab, a angústia pelo terrível de ser o responsável pelo seu destino não todo escolhido. Há algo dessa crise existencial nos detalhes com que a câmera de Aronofsky nos faz ver um Charlie abandonado a si mesmo, numa culpa pelo que ficou perdido. A baleia, aqui, se confunde com o capitão: “Ó, sinto agora que a minha maior grandeza está na minha maior dor… Em direção a ti eu me jogo, baleia que tudo destrói, mas nada conquista; luto contigo até o fim… que eu te arraste em pedaços enquanto prossigo em teu encalço, embora amarrado a ti, maldita baleia!” As palavras de Ahab costuram a inevitabilidade da escolha que reconhecemos, desde os gregos, como trágica. Se há uma possibilidade de redenção, se a vida humana pode se tornar digna de ser vivida, ela está em reconhecermos também. no fim das contas, que mudar é nosso destino. Lemos isso, também, em Melville, nas palavras de Starbuck ao capitão: “Não é tarde demais, mesmo agora, no terceiro dia, para desistir. Vê! Moby Dick não te procura. És tu, na tua loucura, és tu, que a procuras!”
Charlie tem cinco dias para dar um outro sentido ao seu naufrágio. A experiência estética provocada pelo filme, naquela sensação claustrofóbica da casa de Charlie, de seu mundo enterrado em culpa e abadono, serve para acentuar sua redenção a partir de uma gratidão pela vida (das pessoas). A chegada do jovem Thomas, sua credulidade algo ingênua e aborrecida ao mesmo tempo, traz de volta o ar que faltava à vida de Charlie, agora já em vias de perdê-la. Refazer a travessia de volta à filha que ele abandonou aos oito anos, ouvindo não apenas seu texto, mas sua presença todo esse tempo ausente, justifica a descoberta feita por Charlie, como se revelada pela honestidade de Ellie em sua agressividade: as pessoas são incríveis, e o tempo todo foram elas que, ausentes ou não, fizeram dele o que ele decidiu fazer de si mesmo. Reconhecer isso é o primeiro passo para deixar de se fazer ausente.
É emblemático que o passo em direção à filha, que Charlie não conseguira antes, tenha sido a escolha de Darren Aronofsky para terminar o filme. É uma espécie de convite, para darmos um primeiro passo em direção à vida incrível das pessoas, sobretudo a das que amamos, para fazê-las (um) presente. Como reconhece o capitão Ahab, num momento de lucidez em meio à loucura: “Mais perto! Vem mais perto de mim, Starbuck; deixa-me contemplar um olho humano; é melhor do que contemplar o mar ou o céu; melhor do que contemplar Deus.”
Muito bom ler sua resenha e poder relembrar esse filme tão incrível, com um trabalho notável de atuação de todos, especialmente, claro, de Brendan Fraser.
É impressionante as sutilezas desse filme, tipo ele cuidar do corvo e não cuidar da própria filha.